Algumas marcas são produndas. As minhas são constantemente cutucadas com um estilete afiado, para não cicatrizarem nunca. É meu sadismo agindo junto com meu impuslo e falando por mim. É, eu sou assim... deixo-me levar por um impulso forte que acompanha o meu pulsar e vou me guiando, de olhos vendados ou não, por caminhos tortos ou iluminados, sem nunca saber onde vou chegar. Tem muita incerteza no meu caminho, tem muita vida me rondando, muita energia sussurrando no meu ouvido, muito prazer escondido nas pequenas coisas. Não, eu não havia deixado de ser o que sempre fui nesse tempo de caos e mundos de cabeça para baixo. Continuei eu, sempre forte, como uma rocha, tentando seguir o melhor caminho - mesmo que este às vezes terminasse em bifurcações terrívelmente obscuras ou misteriosas. Segui e vi até onde meus pés poderiam caminhar sem aquele certo alguém. E estava tudo desabando. Eu tinha alguns pratinhos para equilibrar, e aos poucos eu fui deixando, um a um. Todos eles cairam e se espatifaram fortemente contra o chão maçiço. Meu mundo fora tão perfeito e depois tão vazio... e havia explodido. Irrompi em lágrimas, as mais amargas que já havia sentido o gosto, e me rejeitei. Rejeitei o meu ser, os meus gostos, os meus desejos, a minha alma... Rejeitei tudo que estava em mim. Culpei-me. E depois de finalmente admitir o que era necessário, eu chorei mais um pouco. Não mais tenho vergonha das minhas lágrimas. Não sinto mais culpa... Eu desacelerei! Cada vez mais, parei até com o impulso. Eu havia aprendido, uma vez, como era ser completa sem precisar de algo mais. Mas ainda assim, havia um vazio naquela época. Agora não dá mais pra negar; não sei não ter o meu algo mais. Eu parei, eu tive tempo, eu escolhi. E é assim que eu quero seguir: começando de novo com meu pulsar - dessa vez o mais forte. Vou caminhando com todas aquelas incertezas que já são parte de mim... até que seja necessário parar novamente. Meus pratinhos eu recolhi do chão e remendei todos, até voltarem à mesma forma de antes. Ficaram cheios de marcas, eu sei. Mas estão agora girando, todos ao mesmo tempo. E é certo que voltarão a cair... mas levará algum tempo até isso.
- Você estendeu-me a mão, meu amor. Eu retribui. Vamos de mãos dadas novamente seguir.
"Entrei no local e sentei-me no balcão. Estava decidida. Encarei a vida a me olhar, do outro lado, respirei fundo e diante de todos pensamentos que me permiti ter, enfim disse: Me vê uma segunda chance! A vida sorriu seu sorriso mais sincero e despejou num copo diante de mim o conteúdo vibrante e vermelho. A bebida mais linda que já havia visto... Sorri-lhe de volta, agarrei o copo e tomei tudo de uma só vez. Senti o líquido parar no meu estômago e me preencher com um sentimento bom. Era a certeza de saber que estava certa, ao menos uma vez, em seguir meu coração. Levantei e saí do lugar, enquanto a vida continuava me sorrindo."